quarta-feira, abril 29, 2009

Pressinto-te, Morte

Pressinto-te Morte, em espasmos de pranto,

Numa dor que sangra em fogo

Pesado, que m’esventra

E insuportavelmente m’alegra

Na chegada tranquila,

Em passos que ceifam almas

À passagem, e avança lenta

Na minha direcção.


(ah meu amado, se viesses ainda

a tempo da salvação

com lábios de feiticeiro)


Sou corpo aniquilado

Com alma que jaz, oculta

Entre promessas de amor eterno,

E já moribunda, pronuncio

Teu nome e rogo-te afincadamente

Que me leves daqui,

Onde a vida m’esbofeteia

Em cada esquina

Sem lágrimas nem contemplações.


(e como as trevas são tão mais belas

E mais puras que a imundice

Com que teus olhos m’enxergam)


Sorrirás perante a visão do cadáver

Em misto de alívio e conforto,

Num contentamento sublime

E merecedor, e a respiração

Segura caminhará nas portas

Do poema, escancaradas em ouro

Puro, para te receber

Com vénias serviçais.


Vera Sousa Silva


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